Sunday, May 06, 2012

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Untitled 1984, Jean-Michel Basquiat

És um “eu-sem-sangue”, uma “persona-eletrônica”,
Um número sem senso, nem sexo ou excesso,
Que finge consciência através do alfabeto,
Sempre prenhe de emoção, insípido quase!...

Assim sensível ao mouse, ao teclado, antes:
Três, sete, um, quatro, e, talvez, zero. Eis o pseudônimo
que em cobaia virtual transforma o humano:
um ser onipotente, embora parasítico.

Tato. Eis o código do silêncio! Olhos.
Eis o sentido do desejo! Tentação:
Basta um “link-de-arbítrio” e a gestação do posso.
Um embrião de sonho então grita: Eis-me aqui!

Aviões, seios, carros, livros e sapatos.
Gravatas, jóias, lábios, cd’s e relógios.
Nomes, cifras, senhas. Opções de pagamento:
Xis – cartão de crédito ou débito automático?!

Status: ter ou não ter? Eis a questão óbvia.
Ser - mais do que um título de posse do ego:
Um fenômeno autogestativo da essência
Psicofísica. Cérebro, coração, ventre.

Pensamento, sentimento, desejo. Sexo.
Existência: a dialética intersecção.
Xis. Sim. Preço: Vida. Um quanto de história. Eu:
Pronome (im)pessoal de um possessivo caso!

*extraído de Húmus [inédito], do escritor Mariano da Rosa [poeta, investigador e ensaista], e publicado na Revista Continuum, Realidades Inventadas, Itaú Cultural:

Tuesday, March 20, 2012

Madrugada Urbana*
Por Mariano da Rosa

"A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão."

["A noite dissolve os homens",
de Carlos Drummond de Andrade]

video

I PARTE


A escuridão urbana tudo torna análogo:
os antônimos em sinonímias transforma,
as antíteses geométricas em símbolos
metafóricos que densificam as formas,
consubstanciando o estereótipo físico
da imagem - que materializa-se, disforme,
sob o véu que uma dimensão de luto veste!...

A escravidão urbana tudo identifica:
não depende do regime, da estação
- se na tirania do inverno, do verão...
se no outono democrático, liberal...
e até no socialismo primaveril...
se-quando o Poder cede às suas vis tendências
de egoistificar-se, imperializando-se!...

Onde estão as carnívoras rosas vermelhas,
e os férteis parasitas do jardim urbano,
e os portões de ferro - as grades da imposição,
e o destino do trânsito da oposição,
e os subalternos porões das castas abjetas,
e os sótãos - refúgio dos sanguinários corvos,
habitat das águias... éden aristocrático

da sociedade do Terceiro Milênio?!...
Estrelas?! Só no céu que ainda o lume espelha!
Não há contrastes. Não há confrontos. Só breu.
Não há arco-íris depois do temporal...
pois o sol fugiu e, de madrugada, ao léu,
que existência pode haver, artificial,
se tudo cai no anonimato - mesmo eu!...

II PARTE

Quem está na esquina senão uma escultura,
um totem tecnológico, um ídolo urbano,
um mecânico artifício?! (Engenho humano?!)
E que figura é esta a mover-se intrusa
no sagrado altar da pirâmide moderna?!
É um humano ou um robô?! É uma estátua?!
(Um reflexo, uma sombra ou uma silhueta?!).

Pois quem está na rua?! (O que?! - senão um carro...
senão borracha e aço, vidro e gasolina:
um protótipo de vida! Onde está o homem?!).
Onde e como distinguir o certo e o errado
se as trevas obscurecem a definição?!
Quem é o bandido e o herói da história (?!),
se a madrugada, enfim, é tão contraditória:

omite o óbvio - e revela o que não o é;
sepulta e ressuscita o sonho e a ilusão,
atribuindo a mesma origem e fim a ambos
- se entre estes extremos a consciência nasce
como a irresistida alvorada futurista
que expele lava de esperança nas entranhas
na gestação que o tempo faz da liberdade!

(à mercê da qual a igualdade manifesta-se,
pois tanto a falta quanto o exagerar daquela
no aborto desta última culminará!
Quando - e onde - sobreviver poderá?! Como?!).
Quem, afinal, está atrás da vítrea tela,
do luminescente vídeo, etéreo, fosfórico...
que, microscópica, uma animação demonstra

fantasmagoricamente intergaláctica?!
Um angélico-humanóide terrenal?!
Ou uma terrígena criatura cósmica?!
A imagem e semelhança da Divindade?!
Ou um mitológico ser-semi-humano?!
Um descendente da raça - ou um ancestral?!
A escuridão da madrugada a tudo iguala!

Que mundo! Que madrugada! Que escuridão!

*extraído de O Todo Essencial, Universitária Editora, Lisboa, Portugal.

Tuesday, January 24, 2012

Fome, José Pádua

Fome*

Mariano da Rosa

Oh! Que dor é esta - tão profunda e tão grande,
Que incontida faz-se maior até que a morte...
Que inconsolável, o pranto do choro extingue...
Da pele ao sangue absorvendo - da carne aos ossos...
Na autofagia que consome a vida orgânica
- Da existência extorquindo a substância divina:
Do olhar, a luz; da voz, o som; do corpo, a imagem!

Que dor é esta (Que irremediável sorte!)...
Que hereditária o sofrer de uma prole impõe,
Mumificando desde o velho até o infante
Na sepultura de um barraco improvisado!
Que incurável dor é esta que anestesia
- Letárgica, contagiosa, fatalística...
Que ao acaso agônico um destino escraviza!

Que dor é esta que qualquer consolo esgota...
Que qualquer alívio imediato despreza...
Que ignora do afeto materno ao instinto onírico,
Não desejando senão o produto lácteo
Que moribundo dos seios secos goteja,
No último fio de esperança que se esvai (...),
P'ra quem o barro cozido é um biscoito!!!

Oh! Que dor é esta que transcende a razão,
Que submerge o espírito, que subverte a vida,
Que subjuga o amor de Deus à sobrevivência?!...
Que dor é esta que a semente sacraliza,
Que santifica o pão, que a criatura humilha,
Antes de gradualmente, enfim, destruí-la (!)
- De um lamento, acorde: que dor (!), que dó (!), que sina (!)?!!!

Que dor é esta que vítimas multiplica,
Que amenizar nenhuma política pode,
Que erradicar nenhum governo é capaz...
Que se prolifera como uma epidemia,
Na periferia das cidades urbanas,
Não mais sendo exclusividade de uma raça?!...
(Mas em qualquer pátria punição de uma casta!)

Que dor é esta senão a dor da fome,
Que mais do que acusar do pão a privação,
Como ausência de fraternidade revela-se,
P'ra quem ser pobre é mais do que não ter tudo
- É não ter nada, é existir como um número
Na estatística que diagnostica o fenômeno:
Da miséria de uma sociedade - símbolo?!...

Sim, que dor é esta senão a dor da fome (?!)
- Fome de igualdade, de justiça, de vida (...):

Fo-me-de-es-pe-ran-ça!!! Sim, simplesmente fome!...

*Beco-Sem-Saída, inédito.

Ouça, na voz do próprio autor, o poema Fome no site do Espaço Politikón Zôon – Educação, Arte e Cultura:
http://www.wix.com/espacopolitikonzoon/ong .

Sunday, December 11, 2011

Faustão [Rede Globo / Brasil] e O Todo Essencial* [Universitária Editora - Lisboa / Portugal]

video

Exposto na vitrine do Domingão do Faustão*, O Todo Essencial [Universitária Editora - Lisboa / Portugal], do escritor Mariano da Rosa [poeta e letrista, ensaísta e crítico literário], é indicado para leitura pelo apresentador Fausto Silva, líder de audiência nas tardes de domingo, performance confirmada através do prêmio de melhor apresentador da América Latina.

*editado pela Universitária Editora, de Lisboa, Portugal, cuja gráfica, Totalgráfica, Lda., Qta. Santa Rosa, Armazém JLS, Camarate, foi a responsável pela impressão do primeiro e único livro [em vida] de Fernando Pessoa [1888-1935], principal escritor do Modernismo português e, ao lado de Camões, um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos: "Mensagem" [1934].

**vídeo disponível nos sites abaixo relacionados:

Kewego/França - http://nisiaback.kewego.fr/

Kewego/Inglaterra - http://beautyimmediacy.kewego.co.uk/

Kewego/Espanha - http://poetadasuspeita.kewego.es/

Kewego/Portugal - http://marianodarosa.kewego.com.pt/

Kewego/Alemanha - http://essential.kewego.de

YouTube - http://www.youtube.com/user/Nisia1996

YouTube - http://www.youtube.com/user/marianodarosapoeta



Detalhe da capa: "Borboleta tecendo", de Onik Sahakian

“A lei necessária da poesia moderna, até o ponto, situado a distância ainda indeterminada, em que entrará em cena como totalidade acabada a grande epopéia do tempo moderno, que até agora se anuncia apenas rapsodicamente e em fenômenos isolados, é: que o indivíduo forme em um todo a parte do mundo a ele revelada e, da matéria de seu tempo, de sua história e de sua ciência, crie para si sua mitologia”

[Friedrich Schelling]

Monday, November 14, 2011

Permuta: A avaliação do ser pelo quanto V Parte


"A história dos esforços humanos para subjugar a natureza é também a história da subjugação do homem pelo homem" [Max Horkheimer]

Friday, September 09, 2011

"Nós pertencemos a uma época em que a civilização corre o perigo de ser arruinada pelos meios de civilização" [Nietzsche]

Convergence, 1952, Jackson Pollock

A great day for freedom
[Pink Floyd]

On the day the wall came down
They threw the locks onto the ground
And with glasses high we raised a cry for freedom had arrived

On the day the wall cane down
The ship of fools had finally run aground
Promises lit up the night like paper doves in flight

I dreamed you had left my side
No warmth, not even pride remained
And even though you needed me
It was clear that I could not do a thing for you

Now life devalues day by day
As friends and neighbours turn away
And theres a change that, even with regret, cannot be undone

Now frontiers shift like desert sands
While nations wash their bloodied hands
Of loyalty, of history, in shades of gray

I woke to the sound of drums
The music played, the morning sun streamed in
I turned and I looked at you
And all but the bitted residue slipped away...slipped away

Um Grande Dia Para A Liberdade

No dia em que o muro veio abaixo
Eles jogaram as armas ao chão
E com as taças ao alto
Nós gritamos porque a liberdade chegara

No dia em que o muro veio abaixo
A Nau dos Insensatos* finalmente atracara
Promessas incendiaram a noite
Como andorinhas de papel em vôo

Eu sonhei que você me deixara
Sem calor, nem mesmo o orgulho sobrou
E mesmo que você precisasse de mim
Era claro que eu não poderia fazer nada por você

Agora a vida tem, a cada dia, menos valor
Conforme amigos e vizinhos partem
E há uma mudança, que mesmo com desculpas
Não pode ser desfeita

Agora fronteiras mudam como areias dos desertos
Enquanto nações lavam suas mãos ensangüentadas
De lealdade, de história, em tons de cinza

Eu acordei aos sons de tambores
A música tocava
O sol da manhã entrava
Eu me virei e olhei para você
E tudo menos o resíduo amargo fugia... fugia



video
Paz, Nísia Back e Mariano da Rosa

Paz*

Não o silêncio bucólico
da vegetação da serra,
mas a paz que oxigena
as entranhas da floresta!

Não o plástico silêncio
de um ateliê artístico,
mas a paz que fomenta
o gênio da criação!

Não o místico silêncio
das atmosféricas nuvens,
mas a paz que fecunda
o horizonte do eu!

Não o silêncio mecânico
destituído de essência,
mas a paz que deflagra
uma existência sanguínea!

Não o silêncio litúrgico
que mumifica o fiel,
mas a paz que transforma
a própria dor em antídoto!

Não o bélico silêncio
de uma pós-revolução,
mas a paz que milita
entre os voluntários mártires!

Não o cósmico silêncio
que a infinitude cultua,
mas a paz que incorpora
o eterno do "aqui-e-agora"!

Não o químico silêncio
que neurotiza os instintos,
mas a paz que exorciza
o oculto mal da alma!

Não o utópico silêncio
que aliena o pacifista,
mas a paz que protesta
que os direitos reivindica!

Não o silêncio político
que a liberdade suprime,
mas a paz que equilibra
os extremos divergentes!

Não o silêncio elegíaco
que a necrose soleniza,
mas a paz que celebra
o milagre gestativo!

Não o silêncio humano
que a ausência substancializa,
mas a paz que une em "nós"
eu e Deus - e o semelhante!

*extraído de O Todo Essencial, Universitária Editora, Lisboa, Portugal, do escritor Mariano da Rosa [poeta, investigador e ensaísta]

"Essa grande recusa é o protesto contra a repressão desnecessária, a luta pela forma suprema de liberdade - 'viver sem angústia' [Theodor Adorno ('... Ohne angst leben')]. Mas essa idéia só podia ser formulada sem punição na linguagem da arte. No contexto mais realista da teoria política ou mesmo da filosofia, foi quase universalmente difamada como utopia" [Herbert Marcuse]

Monday, August 08, 2011

Permuta*: O Todo Essencial & A Bela Imediatez

video
De Nísia Back** e Mariano da Rosa***

*extraído de "O Todo Essencial" [Universitária Editora / Lisboa - Portugal];
**intérprete, compositora e produtora dos arranjos;
***poeta e letrista, ensaísta e crítico literário, autor de "O Todo Essencial" [Universitária Editora - Lisboa / Portugal]

"A civilização tecnicista não é uma civilização do trabalho, mas do consumo e do 'bem-estar'. O trabalho deixa, para um número crescente de indivíduos, de incluir fins que lhe são próprios e torna-se um meio de consumir, de satisfazer as 'necessidades' cada vez mais amplas"
[Georges Friedmann]